A compaixão pode unir vegetarianos e carnívoros

Publicado  03/01/2019 

Consumir ou não produtos de origem animal? Este é um assunto difícil de conversar. Inclusive, você já deve ter presenciado alguma discussão mais acalorada sobre ele.


Apenas me senti à vontade para debater quando aceitei a mim mesmo como carnívoro, vegetariano e vegano. Vivi por um tempo em cada um dos universos e foi interessante me observar, julgando a mim mesmo, em cada uma das posições. Uma hora me sentia “seguro e moralmente superior” e noutra “hipócrita e frágil”.


Percebo que o constante julgamento só dificultou o meu discernimento e trouxe sentimentos de desconexão como raiva, culpa e altivez. Afinal, uma nova forma de pensar não muda – essencialmente – quem eu sou. Consigo reconhecer nas minhas três escolhas as mesmas motivações humanas: eu queria ser feliz e reduzir o sofrimento.


Será que costuma haver um contexto que forneça condições para uma resposta mais imparcial, diante da inquisição: “Por que você não quer enxergar que bilhões de animais estão sendo torturados e que o atual consumo de carne é insustentável?”


É natural sentir-se pouco à vontade diante de uma questão assim, quando, para alguns, uma das poucas alegrias é ir aos finais de semana comer o seu sushi com sua esposa ou fazer um churrasco com os amigos.


A verdade é que a maioria dos carnívoros/onívoros, que reconhecem essa realidade, gostariam (assim como veganos e vegetarianos) de ter as condições e o poder para cessar o sofrimento e os danos ambientais.


A compaixão* é o ponto de encontro. E, ao meu ver, precisa ser o ponto de partida para dialogar com abertura e cooperação.


Porque há tanta discussão improdutiva e raiva?


O questionamento que surge a essa altura é: “Ok, ambos os lados têm a mesma necessidade/sentimento, mas é preciso concordar que algumas pessoas tomam uma atitude, enquanto outras não fazem nada?”


A resposta é sim. E cada uma daquelas que se dispõe a agir o faz com base naquilo que conhece, na medida que pode e dentro do seu contexto.


Por isso, inclusive, foram criadas diversas nomenclaturas que designam diferentes formas de redução de consumo:


– Lactovegetarianismo: dieta inclui apenas leite e seus derivados;


– Ovo-lactovegetariano: dieta inclui apenas ovos, leite e seus derivados;


– Vegetariano estrito: dieta não inclui alimentos de origem animal;


– Vegano: não consome alimentos, nem qualquer outro produto de origem animal.


Existe ainda uma nuance muito maior de formas de responder a essa questão: semi-vegetariano, pescovegetariano, entre outras.


Uma das pessoas com quem conversei contou que não consumia “nada” de procedência animal, apenas colágeno que estava na composição do seu produto estético milagroso. O que ela seria?


É praticamente impossível eliminar 100% o consumo de produtos de origem animal, pois são muitos (há restos de animais, até mesmo, em componentes eletrônicos e meios de transporte). Poucas vezes, um vegano reconhece isso em seu discurso e, muitas vezes, é acusado de hipócrita por essa fragilidade.


A verdade é que o conceito de veganismo é mais amplo. Em conformidade com a The Vegan Society (a mais antiga entidade vegana), significa “uma forma de viver que busca excluir, na medida do possível e do praticável, todas as formas de exploração dos animais.” O propósito do veganismo é despertar uma consciência que leve a uma redução significativa de danos, mesmo que uma solução última seja improvável.


Contudo, quem pode definir o que é “possível” e “praticável”? O que é imprescindível para um, pode ser fútil para outro… O que é subjetivamente praticável para mim, hoje, pode deixar de ser amanhã…


São comuns os embates entre os que seguem formas diferentes de vegetarianismo. Um grupo avalia que o outro não se sacrifica o suficiente. São diversos os julgamentos que só geram sentimentos de desconexão como raiva e desprestígio.


A imposição não é o melhor caminho, pois é preciso decidir por si para empoderar-se. Qualquer lei que não se fundamente numa convicção interna, será negligenciada na primeira oportunidade.


O julgamento é o ponto de desencontro. E, ao meu ver, o ponto de partida de um caminho de desprezo e não cooperação.


Como ter uma conversa mais produtiva e amistosa?


Se queremos que alguém reveja valores e escolhas, façamos isso com acolhimento e a partir de um convite. Principalmente, tratando-se de uma questão tão delicada.


Uma das perguntas mais ouvidas por um vegano – “Como é que você consegue viver sem carne e queijo?” – já deixa claro o quanto parece ser aterrorizante para um onívoro sequer imaginar ter uma vida de abstenção.


Para alguns a alimentação é uma compensação emotiva: uma forma de lidar com sentimentos de ansiedade, medo e rejeição. Para outros é um prazer – percebido como essencial – um hábito consolidado e reforçado pela mídia e comunidade.


Muitos também não vêem como prioridade repensar o assunto e fecham-se numa análise superficial (ou não) feita no passado. Naturalmente, eles costumam estar distraídos ou estressados com suas ocupações diárias, o que torna compreensível essa postura.


Mais do que concordar ou discordar, é preciso compreender a experiência das pessoas e porque elas respondem de maneiras diferentes, inclusive, algumas decidindo por não fazer nada.


Parece-me um melhor caminho encarar a complexidade, escutar as dificuldades e acolhê-las, para então, se houver abertura, chamar a uma reflexão moral, que é o que se traduz por ética.


Somos éticos quando questionamos o quanto podemos ser menos parciais e individualistas em nossas escolhas.


Ninguém pode ser de todo imparcial. Assim como a compaixão está presente no homem, desde os primeiros anos de vida, também lhe é natural preocupar-se mais consigo mesmo e com aqueles que lhe são próximos (incluindo animais). Compaixão e parcialidade são características humanas que podem ser reforçadas ou não.


Após acolher, a melhor forma de convidar para mudança é a partir do exemplo. Conte suas experiências, explique como enfrentou suas dificuldades, exponha sua reflexão, e forneça suporte e atenção para aqueles que se identificarem.


A minha experiência e dificuldades

Imagem Licenciada – Shuttherstock

Um das coisas mais importantes da vida é definir o que comemos. Esta é uma escolha que não tem impacto só em nossa saúde, mas também social, ambiental e na vida de bilhões de outros seres vivos e sensíveis.


No meu caso, só busquei mais informações, após desenvolver minha autonomia interior. Não fazia sentido investigar “se deveria (ou não) reduzir o consumo de produtos de origem animal”, enquanto não estivesse disposto a este sacrifício.


Afinal, se “não posso viver sem carne” que diferença faz saber se o consumo é sustentável ou não, por exemplo. Saber disso só me traria culpa e angústia.


Encontrei essa autonomia quando passei a ter um estilo de vida mais Mindfulness. O que, bastante resumidamente, significa viver de uma maneira mais consciente e ter como um dos valores a compaixão* (conceito pouco compreendido e confundido com piedade ou sentimentalismo).


Concluída esta etapa, comecei minha pesquisa. Descobri que há questões bastante consensuais que apoiam a redução do consumo de produtos de origem animal e muitas delas foram reveladas pelo documentário: “Cowspiracy – O Segredo da Sustentabilidade”.


Ele explica porque não faz muito sentido você se preocupar com o desperdício de água, sem ter o mesmo cuidado com o que você come. A sustentabilidade é o tema central, mas não é o único.


Em termos de crítica, o filme alcançou a nota de 8.4 no IMDB. Pontuação excelente e semelhante à clássicos como “Laranja Mecânica”, e “À Espera de um Milagre”. Dezenas de milhões de pessoas já o assistiram.


Não é um documentário sangrento (nem por isso, menos honesto). E todas as suas fontes estão disponíveis para consulta e debate: uma transparência fundamental para qualquer análise de caráter científico.


O filme completo pode ser encontrado no Youtube, com legenda em português. Mas como são links de fontes não proprietárias, disponibilizo abaixo o trailer e incentivo o download pelo site oficial ($4,95) ou o acesso pelo Netflix.





A minha reflexão

Quando confrontados, durante as entrevistas do documentário, os responsáveis pelas maiores organizações ambientais do planeta simplesmente ficam sem voz, diante dos argumentos contra a agropecuária.


O Greenpeace, que negou dar entrevista por três vezes, foi obrigado a dar uma resposta formal, após a repercussão do documentário. Segue trecho em destaque:


“A produção intensiva de animais requer enorme quantidade de água e alimentos. O cultivo de grãos para a fabricação destes produtos disputa espaço diretamente com a produção de alimentos para humanos. A agropecuária expande suas fronteiras para áreas onde antes existiam florestas (…) Recomendamos que as pessoas reduzam e repensem o consumo.”


Não encontrei artigos científicos (em língua inglesa ou portuguesa) que neguem este cenário e recomendação expressa acima. É um amplo consenso a insustentabilidade do crescente consumo de produtos de origem animal.


As grandes empresas nacionais de produção de carne e laticínios têm conhecimento da grave denúncia: a pecuária é um dos maiores (senão o maior) problema ambiental do Brasil. No entanto, nenhuma delas fala sobre o assunto.


Ao invés de dedicar o mínimo de tempo a uma resposta, investe-se o máximo de dinheiro em publicidade. Uma excelente estratégia se a intenção é capturar nossa atenção e nos conduzir a uma ação por impulso ou hábito. O que se quer é limitar a liberdade, explorando a fragilidade das nossas paixões e, ao mesmo tempo, despertar a falsa sensação de que estamos fazendo escolhas conscientes.


O que se fez, após o sucesso do documentário, foi a criação de uma campanha publicitária de 18 meses, no horário nobre da TV, com a seguinte mensagem: “O Agro é pop, o Agro é tudo”. Coincidência ou não, parece proposital querer, pela repetição, que esqueçamos: “o Agro é um negócio” e sua viabilidade não deve ser avaliada apenas financeiramente.


Ainda não temos uma alternativa viável ao capitalismo. Mas, se quisermos uma sociedade moral ou sustentável, dentro deste sistema, as soluções não virão de um comercial televisivo, pago por empresas interessadas, unicamente, em satisfazer o mercado.


A economia é amoral. Ela responde à lei da oferta e da procura. Não adianta culpar a mídia, o Agronegócio, muito menos, os agricultores. O mercado é resultado das nossas escolhas.


Infelizmente, não consumimos de maneira consciente. Nossas escolhas costumam ser desatentas. Inclusive, por isso, considero compreensível que haja um certo pessimismo desmotivante nesta questão.


Por vezes eu mesmo já tive pensamentos como: “nada vai mudar” ou “meu esforço não vale a pena”. No entanto, nestes momentos, trouxe à minha lembrança uma frase que me ofereceu uma perspectiva mais realista e abrangente:


“Nada é mais poderoso do que uma ideia, cujo tempo chegou.” (Victor Hugo)


Quem, por exemplo, em plena escravatura, poderia imaginar um mundo onde negros fossem tratados como iguais e alguns eleitos presidentes de nações democráticas!?


No mesmo sentido, acredito que o reconhecimento da sensibilidade dos animais (muitos possuem um sistema nervoso semelhante ao nosso) e dos impactos ambientais causados pelo nosso consumo desmedido vão se tornar tão factuais que as mudanças virão, mesmo que às custas de graves danos.


Há centenas de milhões de vegetarianos lutando para minimizar esses danos e construir um mundo diferente. No Brasil, pesquisa feita pelo IBOPE, registrou que 15,2 milhões de pessoas são vegetarianas (sem contar aquelas que aderem a outras formas de redução do consumo).


Não é preciso uma lei para mudar o mercado. Se a demanda cair progressivamente, a indústria e as pessoas que trabalham nela terão tempo e incentivo suficiente para se adequar a uma realidade sustentável.


Fazer a nossa parte, em alguma medida, é muito importante. A adesão de um maior número de pessoas significa mais suporte social, mais serviços (restaurantes, pizzarias etc.) e produtos (suplementos/alimentos saborosos e baratos). Significa a construção de uma nova cultura.


Acredito que isso seja possível e sigo a sabedoria de um conterrâneo nordestino:


“O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.” (Ariano Suassuna).


Evitarianismo: o meu convite e contribuição


Em que medida eu reduzi o consumo de alimentos derivados de animais?


Para mim, o possível e o praticável, foi uma redução mensal de aproximadamente 70% no meu consumo de laticínios, ovos e carnes brancas, além de praticamente parar de comer carne vermelha e processadas.


Chamei essa proposta de Evitarianismo e, particularmente, a encaro como uma etapa de transição para um vegetarianismo estrito.


Dentro do meu contexto, vem sendo “difícil” manter essa proporção. No entanto, ao mesmo tempo, me sinto recompensado por haver um sentido na minha atitude que vai muito além do meu benefício próprio.


Esse agir – para além de uma perspectiva autocentrada – é o que chamamos de propósito. Uma vida feliz não é feita só de prazeres, mas também de propósitos.


Há muitas outras propostas que defendem o consumo de derivados animais, de maneira mais flexível, alguns exemplos são: o Flexitarianismo, a Segunda sem Carne, a “Dieta das 60 gramas” de Michael Pollan e a mais popular “Vegetariano de Segunda a Sexta”, divulgada pela conferência TEDx, com milhões de seguidores.


O meu convite é que você leve mais consciência para os seus hábitos alimentares. Essa atitude, inclusive, irá melhorar sua alimentação**, o que está diretamente relacionado com os níveis de stress e felicidade.


Obrigado por me acompanhar até aqui. E sinta-se incentivado a nos contar a sua experiência nos comentários.


*Compaixão: desejo de liberar alguém de seu sofrimento.

**Consulte um nutricionista, caso faça a opção por dietas restritivas.

Ygor Sarkis Por Ygor Sarkis Cientista Social, graduado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em formação em Mindfulness aplicado à Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP / MENTE ABERTA) e Arteterapia pela Traços, instituição de ensino filiada à União Brasileira de Associações de Arteterapia (UBAAT). Pós-Graduado em Comunicação pelo Centro Universitário Estácio de Sá (ESTÁCIO / FIR). [Saiba mais]