Eu sou pouco racional e fácil de manipular

Publicado  22/10/2018 
Pintura de Ygor Sarkis "A alma precisa de tempo". Acervo Pessoal.

[Este texto foi escrito durante as eleições de 2018]


Segundo o Grupo de Pesquisa Política da USP mais de 12 milhões de pessoas já compartilharam mentiras nas redes sociais em 2018.


No texto a seguir, compartilho compreensões e recomendações que podem ajudá-lo a alertar seus amigos e familiares quanto a armadilha das fake news nestas eleições – a partir de uma abordagem não violenta e mais segura.


“Eu sou pouco racional e fácil de manipular” …


Descobri isso, não foi nessa eleição, foi há alguns anos, depois do falecimento do meu pai, quando comecei um caminho árduo de autoconhecimento.


Foi difícil descobrir a minha vulnerabilidade e reconhecer as minhas imperfeições. A noção de que eu era “mais inteligente e acima da média” me servia como uma armadura, que protegia minha pele em carne viva.


O caminho do autoconhecimento (para mim) não foi como acender uma lâmpada e nem rápido como um “clic”. Foi como queimar nas chamas de uma fogueira e, pouco a pouco, iluminar “minhas sombras”.


Quando você diz para uma pessoa que ela está sendo “manipulada”, a mensagem recebida (caso ela não esteja acostumada a lidar com suas fragilidades) é a seguinte: “Você é uma idiota que acredita em boatos” ou “Você é um(a) maria vai com as outras”.


Para notificar alguém de uma notícia enganosa, de maneira não violenta, apenas envie o endereço da matéria e informe que ali poderá ser encontrado uma apuração detalhada indicando a sua falsidade. Não sorria e não faça julgamentos. Num primeiro momento, nem mesmo repreenda.


Se o retorno for positivo e houver intimidade, recomende que ela edite a postagem ou que a delete para que outros não sejam também enganados.


Se o retorno for negativo, a pessoa pode estar fechada ou apenas discordar da matéria. Para discernir é preciso estar atento ao seu tom de voz, palavras e tempo de resposta. Não havendo uma relação forte de confiança, em ambos os casos, recomendo encerrar a conversa e enviar uma mensagem como essa:


“Só lhe enviei este link porque ele me ajudou a discernir sobre a validade da matéria, mas estou aberto caso você encontre mais informações. Assim como você, também estou sujeito a me enganar. Respeito sua opinião”.


Este é um posicionamento verdadeiro e humilde (afinal, realmente, você pode estar enganado).


É também um posicionamento respeitoso (afinal, mesmo que a pessoa esteja resistente, ela tem razões emocionais e crenças – lúcidas ou não – para isso.)


Enfatizo que a conversa seja encerrada, porque o mais comum é que a sua mensagem seja recebida como um confronto. A partir daí você é um inimigo e tudo que argumentar será descreditado e alvo de desconfiança. Isso pode levar ao ódio e ao radicalismo.


Só lhe resta esperar uma outra oportunidade para conversar (sob outro contexto) ou que a pessoa passe por novas experiências e reveja suas crenças por si mesma. Infelizmente, isso costuma levar tempo.


Hoje, me perguntam como eu consigo conversar e/ou manter algum nível de conexão com pessoas resistentes e de pensamentos radicais? Respondo:


“Já carreguei essa armadura. Poderia ser eu. E, às vezes, ainda me pego com ela…”


Na minha experiência, a empatia e o amor (tão fundamentais) só surgem de uma profunda compreensão da natureza humana, em primeira pessoa.


Somos esponja. Somos sensíveis a todas as informações e estímulos que estão ao nosso redor. Por circunstâncias (história particular, personalidade, meio social…) cada pessoa é mais sensível a um tipo de informação ou estímulo. Mas todos estamos suscetíveis a sermos enganados se não conhecermos bem nossas fragilidades emocionais e cognitivas.


Ao aceitar que você é pouco racional e manipulável, você se torna mais vigilante e preocupado com o desenvolvimento da sua autoconsciência. Você reconhece que precisa de mais ajuda e passa a suportar mais incertezas. Você tem mais paciência para debater, se o diálogo for possível e oportuno.


[A pintura que ilustra essa postagem é inspirada na música “Alma” de Paulo Barreto.]

Ygor Sarkis Por Ygor Sarkis Cientista Social, graduado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em formação em Mindfulness aplicado à Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP / MENTE ABERTA) e Arteterapia pela Traços, instituição de ensino filiada à União Brasileira de Associações de Arteterapia (UBAAT). Pós-Graduado em Comunicação pelo Centro Universitário Estácio de Sá (ESTÁCIO / FIR). [Saiba mais]