Por favor, me chame pelos meus verdadeiros nomes – Thich Nhat Hanh

Publicado  27/11/2016 

 

Assim como o cientista Jon Kabat-Zinn, o monge Thich Nhat Hanh foi também um dos principais responsáveis pela popularização do mindfulness no Ocidente.

 

Thây (como é carinhosamente chamado por todos) é também mundialmente conhecido por seu papel na promoção da paz durante a Guerra no Vietnã. Ele criou organizações baseadas nos princípios da não-violência e compaixão oferecendo ajuda a aldeias devastadas, reconstruindo escolas e erguendo centros médicos.

 

Caso você queira conhecer um pouco mais de suas ideias, recomendo que acesse aqui a entrevista completa que ele concedeu à Oprah Winfrey.

 

Abaixo deixo apenas um trecho dessa entrevista que considero bastante oportuno para nosso 3° encontro online:

 

 

Por fim, transcrevo abaixo uma das suas poesias-meditações mais profundas a qual eu também recomento para esse encontro.

 

Resumo numa única frase o sentido que está reflexão teve para mim na primeira vez que eu a li:

 

“A compaixão não significa que não lutamos, significa que não odiamos” (Sharon Salzberg)

 

Texto e Meditação de Thich Nhat Hanh

Em Plum Village, onde vivo na França, recebemos muitas cartas dos campos de refugiados de Cingapura, da Malásia e das Filipinas. É muito triste ler essas cartas, mas temos de fazê-lo, temos de nos manter em contato.

 

Fazemos o possível para ajudar, mas o sofrimento é tamanho que às vezes desanimamos. Dizem que metade dos refugiados que fogem em barcos morre no mar.

 

Um dia recebemos uma carta de um refugiado que nos contava a história de uma menina num pequeno barco que foi violentada por um pirata tailandês. Ela só tinha doze anos. Jogou-se no oceano e morreu afogada.

 

Quando você ouve uma história dessas pela primeira vez, você sente raiva do pirata. Naturalmente toma o partido da menina. A medida que examinar o assunto com maior profundidade, verá tudo de um modo diferente. Se você tomar o partido da menina, é fácil. Basta pegar uma arma e matar o pirata. No entanto, não podemos agir assim.

 

Na minha meditação, vi que, se eu tivesse nascido na aldeia em que o pirata nasceu e tivesse sido criado como ele foi, haveria uma grande probabilidade de que eu me tornasse pirata também.

 

Vi que muitos bebês nascem nas costas do golfo do Sido, centenas a cada dia. Se os educadores, os assistentes sociais, os políticos e outras pessoas não fizerem algo para mudar sua situação, daqui a vinte e cinco anos uma quantidade deles vai ser pirata.

 

Se você ou eu nascêssemos hoje numa daquelas aldeias de pescadores, dentro de vinte e cinco anos poderíamos nos tornar piratas. Quem pega a arma e mata o pirata está matando a todos nós, porque todos nós até certo ponto somos responsáveis por esse estado de coisas.

 

Depois de uma longa meditação, escrevi o seguinte poema. Nele, há três pessoas: a menina de doze anos, o pirata e eu. Será que podemos olhar um para o outro e nos reconhecer?

 

Chame-me pelos meus nomes verdadeiros, por favor
Chamem-me pelos meus verdadeiros nomes
Não digam que parto amanhã
Porque hoje estou ainda chegando.

 

Olhe bem, a cada instante estou chegando
Para vir a ser botão de flor em ramo de primavera
Para ser passarinho de asas frágeis
Aprendendo a cantar em meu novo ninho.

 

O ritmo do meu coração é o nascimento e morte
De tudo o que vive.

 

Sou a libélula em metamorfose
Em vôo sobre as águas do rio
E sou pássaro que se lança ao ar para engolir a libélula.

 

Sou a criança em Uganda, só pele e osso
Minhas pernas como gravetos
E sou o traficante que vende armas para Uganda.

 

Sou a jovem púbere
Que escapa em uma balsa
E que, violentada por um pirata, lança-se ao mar
Mas sou o pirata ainda incapaz de sentir e de amar

 

Minha alegria é como a cálida primavera
Que faz florescer toda a Terra.
Minha dor é como um rio de lágrimas,
Tão vasto que enche os quatro oceanos.

 

Chamem-me pelos meus verdadeiros nomes,
Para que eu possa despertar e enfim escancarar
Em meu coração as portas da compaixão.

 

Quando sou capaz de ver que sou todas essas pessoas, meu ódio não está mais presente, e eu fico determinado a viver de forma que possa ajudar as vítimas, e possa ajudar aqueles que criam guerra e destruição.

Por Ygor Sarkis Terapeuta com certificação Internacional em Gerenciamento de Stress pela Portland State University (PSU - EUA) e International Stress Management Association Brasil (ISMA - BR). Pós-graduado em Psicologia Clínica pelo Instituto de Desenvolvimento Educacional (IDE) e Arteterapia pela TRAÇOS, instituição de ensino filiada à União Brasileira de Associações de Arteterapia (UBAAT). Pós-graduando em Mindfulness e Terapias Integrativas pela Child Behavior Institute of Miami (CBI of MIAMI). [Saiba mais]

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